sábado, 14 de novembro de 2009

Entrevista com o escritor Ismael Caneppele

Lajeadense, 27 anos, Ismael Caneppele é escritor da obra " Os Famosos e os Duendes da Morte" que gerou um longa metragem dirigido pelo cineastra Esmir Filho. As gravações foram feitas em meados de 2008 aqui na cidade de Lajeado e região.
Em uma entrevista exclusiva Caneppele falou sobre seu livro e a transição da obra para sétima arte: Confira!

Thaty Maldaner: Conte sobre o livro " Os famosos e os duendes da morte".
Ismael Caneppele: O livro fala sobre três dias de angústia na vida de um adolescente que está prestes a partir da sua cidade natal. Nesses três dias, tudo acaba sendo uma despedida. Tudo o que ele vê é como se fosse pela última vez. Nesse processo houve uma reaproximação do universo de Bob Dylan, e Dylan foi um guia durante toda a jornada. Suas canções, filmes e livros me ajudaram muito a encontrar a tônica da partida e, consequentemente, da transformação. Ouso dizer que o livro é uma carta de adeus à minha mãe, à minha casa, e à cidade que um dia foi minha.

Thaty Maldaner: Quando começou a escrever, como foi o processo de criação?
Ismael Caneppele: Comecei a escreve-lo em 2006. A cada novo tratamento, busquei um texto mais sombrio, fugindo de imagens óbvias e tentando me desapegar de uma narrativa cronológica. O fato de o livro ter virado filme, de os personages terem virado pessoas reais, fez com que eu pudesse me libertar de descrições externas para me perder quase que exclusivamente no lado de dentro da cabeça do protagonista. O livro é o vale de sombras pelo qual o garoto sem nome vaga durante três dias. É um limbo. O lugar onde ele espera pelo outro lado. Livro e filme são duas partes da minha história. É difícil definir onde um termina e o outro começa.

Thaty Maldaner: Sua inspiração, onde surgiu a história?
Ismael Caneppele: Surgiu nas tardes em que passei olhando o forqueta virar taquari no alto da ponte de ferro, nas plantações da região de Carneiros onde eu gosto de ficar observando os passaros voltando para o ninho ao entardecer, no quarto onde passei a adolescência e para onde volto sempre que estou em casa. Na biografia de Bob Dylan que me acompanha dese sempre. Nas raízes do folk, canções de protesto e de saudade. Nas noites em arroio do meio bebendo vinho na esquina da casa do Diego com o Marcos, a Fran, o Nêne… A inspiração veio do meu dia a dia quando estou em Lajeado. Veio também dos meus amigos que nunca conseguiram sair daí. Veio dos meus primos mais novos que viviam o mundo através da internet e pediam que eu contasse como era a vida nas grandes cidades. Veio do medo e do desejo que as pessoas têm de ir embora e como elas lidam com essas expectativas e frustraçoes.

Thaty Maldaner: Porque Lajeado foi umas das cidades escolhidas?
Ismael Caneppele: Por causa da ponte de ferro e da beleza das plantações em Carneiros. Lajeado devia estar no filme porque, em breve, tanto a ponte será descaracterizada (com asfalto, semáforo e desmatamento em torno da estrada de acesso), quanto o bairro de Carneiros será inteiramente transformado em um imenso loteamento. Quero que as gerações futuras saibam como era a Lajeado que eu vivi e o cinema é uma arma poderosa para manter a essência de um passado que, em breve, não existirá mais. Um dia os nossos filhos verão esse filme e sentirão saudade de uma época que nós vivemos.

Thaty Maldaner: Qual sua estratégia para prender a atenção do leitor?
Ismael Caneppele: Nenhuma. Não faço a menor questão de prender ninguém. Prefiro pensar em liberdade de identificação. Quando escrevo estou nu e isso sempre acaba interessando alguém.
Thaty Maldaner: Sobre sua infancia: Você utilizou fragmentos ou devaneios particulares e familiares no desenrolar a história?
Ismael Caneppele: Sempre uso. Minha literatura é autobiográfica e eu não faço a menor questão de esconder. Todas as minhas vivencias estão registradas em meus livros e roteiros. Assim como Patty Diphusa, só escrevo sobre o que conheço profundamente. Como o meu caminho é o do autoconhecimento, impossível falar sobre outra coisa que não seja eu mesmo. Afinal, somos a geração big brother.

Thaty Maldaner: O livro virou roteiro, redigido por você e o cineastra Esmir Filho. O que esse pulo na sua carreira significa para você como jovem escritor?
Ismael Caneppele: A diferença é que agora eu sou apontado na rua porque fiz um filme. Antes eu era apontado por coisas bem piores. (risos) Espero que eu faça tanto sucesso a ponto de um dia virar nome de praça ou de rua. Só a fama póstuma me interessa.

Thaty Maldaner: Hoje, com o longa metragem pronto... você foi escritor, roteirista e ator, "multifuncional". Você se considera realizado, motivado a querer mais?
Ismael Caneppele: I just can’t get enough!!! Tenho três argumentos para próximos filmes, um novo livro em processo e uma peça de teatro que preciso desenvolver… sou movido a trabalho e sonho. Me considero realizado para a minha idade, mas a tendência é sempre olhar para frente.

Thaty Maldaner: O que você vê à frente?
Ismael Caneppele: Muito a se fazer! O futuro não será legal se eu não acordar todos os dias pensando em formas de concretizar os meus projetos. A coisa que eu mais abomino é sonho que não vira realidade.

Thaty Maldaner: Como surgiu esta oportunidade? (com o cineastra Esmir Filho que é considerado uma revelação no cinema brasileiro e internacional)
Ismael Caneppele: Acredito em encontros e o Esmir foi um dos grandes encontros que eu tive na minha vida. Quando decido trabalhar com alguém, empenho-me ao máximo para que aconteça e com o Esmir nao foi diferente. Empenhei-me em mostrar o meu melhor e apresentar o meu modo de ver o mundo da forma mais generosa possivel. No fundo, é tudo uma questão de entrega. Viver intensamente e deixar que as coisas aconteçam como elas querem acontecer. É preciso determinação, tranquilidade e comunicação, sempre.

Thaty Maldaner: O filme está participando que festivais nacionais e internacionais. Me conte sobre os festivais, prêmios e críticas.
Ismael Caneppele: O filme está começando a sua carreira agora. Acabamos de ter uma ótima recepção em Locarno, na suíça. Dia 27, participamos do festival de cinema do Rio de Janeiro, competindo com a nata do cinema nacional (beto brant, karim ainouz, suzana amaral…) e ficamos em primeiro lugar! Depois do Rio o filme compete no festival de Biarritz, na frança e no fim de outubro estará na competitiva da Mostra Internacional de Cinema de SP. Quanto à crítica, a revista Variety, mais importante publicação de cinema do mundo, comparou o filme a uma fábula dos irmãos Grimm. Melhor comparação não poderia existir. Estou me sentindo!

Thaty Maldaner: Quando vamos ter a oportunidade de ver sua obra nos cimenas e seu livro publicado.
Ismael Caneppele: Filme e livro caminham juntos em todos os sentidos. A partir de agora, em todos os festivais nacionais onde o filme for apresentado, também haverá um lançamento do livro. O livro lançado em festivais será uma obra em progresso, ou seja, serão edições limitadas e numeradas especialmente para cada evento. Quando o filme estrear nacionalmente em circuito comercial, o que deve acontecer em fevereiro, também o livro estará à disposição em todas as livrarias do Brasil.
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PS: Festival de Cinema do RJ 2009 - " Grande vencedor da noite, cumulando o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção e o Prêmio Fipresci, foi Os Famosos e os Duendes da Morte, primeiro longa-metragem do diretor Esmir Filho. O Prêmio Fipresci foi decidido por um júri composto por Paulo Portugal (Presidente), Rodrigo Fonseca e Mario Abadde" Fonte: http://www.festivaldorio.com.br/

1 comentários:

Vinildo disse...

Vi o filme ontem e fiquei muito impressionado. dá gosto ver uma obra tão cheia de frescor e delicadeza, tão viva sendo produzida no brasil de hoje.
me deu uma inveja (branca) do elenco!!!!!